Negação e liberação - O problema da verdade
Aforismos a partir do livro O Anticristo de Nietzsche
Oni
Eis um pronunciamento tipicamente sacerdotal: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.” Na boca daquele que talvez tenha sido o único cristão, o que morreu na cruz, colocou-se essas palavras. A afirmação tornou-se uma condição para a fé, algo em que “deve-se” crer para “ser salvo”. A formulação unívoca compreende uma doutrina cristocêntrica, um falso orgulho, a grande mentira sobre a qual se fundou o cristianismo. O Deus único, o filho único, o único caminho, a única verdade, a morte de Cristo na cruz como “a verdade”, são, conforme Nietzsche, produções do "ressentimento", um jogo sedutor de palavras que faz de uma doutrina um critério de verdade.
A morte na cruz pode, no máximo, ser conseqüência de uma vida que se viveu de forma instintiva, não um pretexto para a instituição de uma verdade. O cristianismo fundamenta-se em algo absurdo, o amor de Deus pressupõe o sacrifício do seu filho. Pela morte do Salvador, a humanidade tida como pecadora é remida e o sacrifício dos inocentes é poupado. No pensamento bíblico, entende-se por inocente todo aquele que realiza na terra o desígnio divino da salvação, como Abel que foi vítima de seu irmão e Jesus que expiou a humanidade. Exceto o derramamento de sangue inocente, pela doutrina do pecado original, não há nenhum justo na terra, pois, a partir de Adão, todos já nasceram no pecado e carecem da salvação. O cristianismo estrutura-se sobre categorias dialéticas, tais como: justificação (a vida é negada para ser justificada), redenção (a vida é condenada para ser resgatada), reconciliação (a vida é acusada para ser absolvida).
A crucificação de Cristo é para os cristãos uma tragédia definitiva, uma catástrofe moral, inigualável. Também na tragédia grega, especialmente em Dionísio, estão presentes as idéias de martírio e sofrimento, mas com sentido oposto. No cristianismo, o sofrimento acusa a vida, testemunha contra ela, por isso, a vida deve ser justificada por Deus. Na tragédia grega a vida é essencialmente justa, não é para ser justificada. Ela é que se encarrega de justificar-se. Para os antigos gregos, a vida não supera a dor interiorizando-a, mas afirmando-a no elemento de sua exterioridade. A partir da perspectiva da salvação cristã, a vida é o caminho para a santidade. Na perspectiva dionisíaca, a existência é suficiente para justificar a imensidão dos sofrimentos.
Através da doutrina da crucificação, pela ideia da “vingança” da morte e esperança de uma “recompensa” na vida eterna, nega-se e despotencializa-se a vida. O cristianismo nada realiza senão a promessa de uma vida eterna no futuro. Dessa crença vive o crente, projetando para o além um sentido para a sua vida. Logo, a fé não conduz à salvação, mas torna-se falsa fé, porque mente.
A idéia de que o ser humano necessita de salvação é uma grande maquinação sacerdotal. Alguém somente pode sentir necessidade de “ser salvo” se é convencido de sua má consciência, que o acusa como “pecador”. O sacerdote subsiste pela invenção da ideia do pecado e pela constante produção de um sentimento de impotência. Ele tem interesse de que a morte seja compreendida na ideia de sacrifício expiatório, negando a morte e criando a fábula da ressurreição. Para manter-se no poder, nega a própria vida e tira dela toda a sua gravidade, a natureza do instinto, a expressão de sua razão.
Como livrar-se da pretensão sacerdotal de querer libertar a humanidade? Os sacerdotes não são inocentes. Deuses existem como reflexos do poder do homem. A ideia sacerdotal de que o sacrifício é necessário para haver salvação é uma usurpação da própria vida. Os sacerdotes são falsos e cheias de artimanhas são as suas palavras.
Como fugir da falsa admoestação de si mesmo? A vida não precisa ser negada para ser afirmada. Se alguém aspira a alguma verdade, não vai encontrá-la em uma pessoa nem em si e nem em coisa alguma. A verdade não é algo que se possa possuir ou reter. Se é que alguma verdade possa ser dita em alguma circunstância aceitável, ela sucede ao sentido, jamais o contrário. Viver o sentido que se vive não tem nada a ver com o verdadeiro e o falso, mas apenas com a vontade de uma vida. Nada de sacrifícios e nem catarses, apenas celebração e afirmação da vida.
A morte na cruz pode, no máximo, ser conseqüência de uma vida que se viveu de forma instintiva, não um pretexto para a instituição de uma verdade. O cristianismo fundamenta-se em algo absurdo, o amor de Deus pressupõe o sacrifício do seu filho. Pela morte do Salvador, a humanidade tida como pecadora é remida e o sacrifício dos inocentes é poupado. No pensamento bíblico, entende-se por inocente todo aquele que realiza na terra o desígnio divino da salvação, como Abel que foi vítima de seu irmão e Jesus que expiou a humanidade. Exceto o derramamento de sangue inocente, pela doutrina do pecado original, não há nenhum justo na terra, pois, a partir de Adão, todos já nasceram no pecado e carecem da salvação. O cristianismo estrutura-se sobre categorias dialéticas, tais como: justificação (a vida é negada para ser justificada), redenção (a vida é condenada para ser resgatada), reconciliação (a vida é acusada para ser absolvida).
A crucificação de Cristo é para os cristãos uma tragédia definitiva, uma catástrofe moral, inigualável. Também na tragédia grega, especialmente em Dionísio, estão presentes as idéias de martírio e sofrimento, mas com sentido oposto. No cristianismo, o sofrimento acusa a vida, testemunha contra ela, por isso, a vida deve ser justificada por Deus. Na tragédia grega a vida é essencialmente justa, não é para ser justificada. Ela é que se encarrega de justificar-se. Para os antigos gregos, a vida não supera a dor interiorizando-a, mas afirmando-a no elemento de sua exterioridade. A partir da perspectiva da salvação cristã, a vida é o caminho para a santidade. Na perspectiva dionisíaca, a existência é suficiente para justificar a imensidão dos sofrimentos.
Através da doutrina da crucificação, pela ideia da “vingança” da morte e esperança de uma “recompensa” na vida eterna, nega-se e despotencializa-se a vida. O cristianismo nada realiza senão a promessa de uma vida eterna no futuro. Dessa crença vive o crente, projetando para o além um sentido para a sua vida. Logo, a fé não conduz à salvação, mas torna-se falsa fé, porque mente.
A idéia de que o ser humano necessita de salvação é uma grande maquinação sacerdotal. Alguém somente pode sentir necessidade de “ser salvo” se é convencido de sua má consciência, que o acusa como “pecador”. O sacerdote subsiste pela invenção da ideia do pecado e pela constante produção de um sentimento de impotência. Ele tem interesse de que a morte seja compreendida na ideia de sacrifício expiatório, negando a morte e criando a fábula da ressurreição. Para manter-se no poder, nega a própria vida e tira dela toda a sua gravidade, a natureza do instinto, a expressão de sua razão.
Como livrar-se da pretensão sacerdotal de querer libertar a humanidade? Os sacerdotes não são inocentes. Deuses existem como reflexos do poder do homem. A ideia sacerdotal de que o sacrifício é necessário para haver salvação é uma usurpação da própria vida. Os sacerdotes são falsos e cheias de artimanhas são as suas palavras.
Como fugir da falsa admoestação de si mesmo? A vida não precisa ser negada para ser afirmada. Se alguém aspira a alguma verdade, não vai encontrá-la em uma pessoa nem em si e nem em coisa alguma. A verdade não é algo que se possa possuir ou reter. Se é que alguma verdade possa ser dita em alguma circunstância aceitável, ela sucede ao sentido, jamais o contrário. Viver o sentido que se vive não tem nada a ver com o verdadeiro e o falso, mas apenas com a vontade de uma vida. Nada de sacrifícios e nem catarses, apenas celebração e afirmação da vida.

